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O que é inversão sexual? O significado histórico do "homem invertido"

há 11 minutos
3 min de leitura

A inversão sexual foi uma teoria médica e psiquiátrica do século XIX que usava o termo "homem invertido" para tentar explicar a homossexualidade.


Dois homens de terno se beijam no sofá de uma sala vintage, com retratos na parede e luz suave ao fundo ilustrando homens considerados invertidos no século XIX

Casal gay no século XIX/Imagem ilustrativa

Significado de "homem invertido"


O termo "inversão sexual" e a figura do "homem invertido" referem-se a conceitos obsoletos da sexologia, da psiquiatria e da psicanálise do final do século XIX e início do século XX, utilizados originalmente para tentar explicar o que hoje conhecemos como homossexualidade. 


A premissa central dessa teoria médica era a de que a atração por pessoas do mesmo sexo seria o resultado direto de uma inversão da identidade e dos papéis de gênero.   


O que foi a inversão sexual?


Na virada para o século XX, a medicina e a nascente psicologia ainda não compreendiam a orientação sexual (por quem você se atrai) e a identidade de gênero (como você se identifica) como fenômenos separados.


A crença científica da época ditava que o desejo por homens era uma característica biologicamente feminina, e o desejo por mulheres, estritamente masculina.   


Sob a ótica da "inversão sexual", um homem que sentisse atração por outros homens teria, obrigatoriamente, uma alma ou um "cérebro feminino" preso em um corpo masculino.


Esses indivíduos eram chamados clinicamente de "invertidos". O conceito prescrevia que a inversão não se limitava à escolha do parceiro, mas se manifestava na adoção de trejeitos, roupas, sensibilidades e papéis sociais tipicamente associados ao sexo oposto.  

 

Como surgiu e quem foram os pioneiros


A formulação da inversão sexual foi a primeira tentativa sistemática da ciência moderna de categorizar o comportamento homossexual, tirando-o da esfera da teologia (como "pecado") ou do direito penal (como crime) e levando-o para o campo da biologia e da medicina. Três estudiosos foram centrais nessa construção:  

 

Karl Heinrich Ulrichs (1825–1895): Jurista alemão e pioneiro dos direitos civis, Ulrichs criou a base do conceito na década de 1860.


Ele cunhou o termo Urning (uraniano) e defendeu a tese da anima muliebris virili corpore inclusa (uma alma feminina confinada num corpo masculino).


Sendo ele mesmo atraído por homens, argumentava que essa condição era inata e natural, não devendo ser criminalizada.   


Richard von Krafft-Ebing (1840–1902): Psiquiatra austro-alemão que publicou o famoso tratado médico Psychopathia Sexualis (1886). Krafft-Ebing classificou formalmente a "inversão sexual" como uma anomalia neurológica e psiquiátrica congênita. 


Embora a considerasse um sinal de degeneração do sistema nervoso, defendia que, por ser congênita, o Estado não deveria punir os "invertidos" criminalmente.   


Havelock Ellis (1859–1939): Médico britânico que publicou o livro Sexual Inversion em 1897. Ellis foi o grande responsável por fixar o termo no vocabulário científico. 


Revolucionário para a sua época, ele argumentou — a partir de relatos antropológicos e casos clínicos — que a inversão não era uma doença, degeneração ou aberração, mas sim uma variação inata, comum e inofensiva da sexualidade humana.   


A perspectiva da psicanálise


Sigmund Freud adotou o vocabulário da "inversão" em sua obra seminal Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), mas rapidamente subverteu a compreensão psiquiátrica de seus contemporâneos.

   

Freud rejeitou a ideia literal de que o "homem invertido" possuía um cérebro feminino. Ele notou que muitos homens homossexuais exibiam um caráter psíquico perfeitamente viril, provando que a teoria da "inversão de gênero" falhava em explicar a complexidade do desejo. 


Em vez disso, Freud postulou a teoria da bissexualidade inata, argumentando que todos os seres humanos nascem com potencial para atração por ambos os sexos, e que a fixação exclusiva (seja ela homossexual ou heterossexual) ocorria devido às dinâmicas do desenvolvimento psicossexual na primeira infância.


Crucialmente, no fim de sua vida, Freud declarou de forma explícita que a homossexualidade não era um vício, uma doença ou uma degradação, desencorajando tentativas de "cura".   


O declínio do termo


Com o avanço do século XX, o modelo estrutural do "homem invertido" tornou-se cientificamente insustentável. 


A psicologia moderna finalmente entendeu o erro fundamental da teoria de Krafft-Ebing: a existência de homens gays com comportamento abertamente masculino (e de mulheres lésbicas convencionalmente femininas) contradizia a regra de que a homossexualidade exigia uma inversão de identidade de gênero.  

 

O termo "inversão sexual" foi gradualmente substituído pela palavra homossexualidade (termo criado pelo escritor Karl-Maria Kertbeny em 1869, mas que só dominou a ciência décadas depois).


Posteriormente, amparada por estudos como os relatórios do biólogo Alfred Kinsey (1948) e pelos movimentos de direitos civis, a Associação Americana de Psiquiatria removeu a homossexualidade de seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) em 1973, encerrando o longo e complexo legado médico iniciado pela teoria da inversão.

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